A Farmácia Mudou de Endereço!

Foi na consulta que tive com competente neurocirurgião Dr. Luiz Ernâni Madalosso, meu amigo e irmão, que ouvi dele uma frase que retrata com fidelidade a saúde de todo o ser humano: “Existem duas espécies de pessoas: as que têm problemas de coluna e as que ainda vão ter um dia”.

É pura verdade. Com a idade avançando cada dia mais no tempo, o corpo sofre transformações e cobra pelos excessos no passado. São poucos os que não são acometidos de males comuns, sem perigo de morte. A esmagadora maioria na idade dos “enta” vai assimilando tudo que é prejudicial à saúde.

Quando jovem, jogar futebol na chuva era refresco, hoje, aos setenta uma corrente de ar súbita e uns poucos pingos de água na cabeça, pode ter consequências avassaladoras. E não é ser hipocondríaco, não. É que as doenças e os remédios fazem parte da vida dos idosos. Dizem os entendidos que a prática de esporte torna a velhice suportável, pois combate à obesidade e estimula o coração. Mentira. Via de regra os desportistas são os mais obesos, com raras exceções. E o coração é uma bomba relógio sempre pronto a pifar quando menos se espera. E o pior: tudo que é gostoso de comer, não presta porque prejudica a saúde. Açúcar, trigo e sal são o trio que causa todos os males; mas viver a vida sem os três é o mesmo que tomar banho no mangue. E tem remédio para tudo: de unha encravada e até para insônia; muito bem acondicionado dentro de caixas de papelão de todos os tamanhos e formas, com tarjas pretas e sem tarjas. 

E os nomes? Cada um mais estrambólico que o outro, criados ao talante da mais obtusa imaginação. Difícil de assimilar e decorar, com bulas quilométricas escritas com letrinhas microscópicas. Idoso para ler necessita de lupa. Duvido que um médico entenda a composição de cada remédio que receita, eles apenas sabem para que sirvam. Com milhares de remédios não existe mente privilegiada que possa guardar todos os ingredientes de sua composição na cabeça.

E para receitar muitos usam do computador para poder lembrar. Hoje em dia falam tanto em bolsa família, mas nenhum parlamentar lembrou-se de instituir a “bolsa remédio” para os maiores de sessenta anos de idade. Estes só são lembrados para andar de ônibus grátis, estacionar o veículo em lugar reservado, pagar meia entrada no cinema e na hora de votar. Mas ninguém se lembrou do mais importante: o gasto com remédios.

Grande parte do salário dos trabalhadores se esvai com a compra de medicamentos, a maioria deles custando o “olho da cara”. Nenhuma empresa tem mais lucro no mundo do que os laboratórios que fabricam e comercializam produtos farmacêuticos. E na hora de pagar não tem choro e nem vela, é a vista ou no cartão para trinta dias. Tal como é na hora de comprar gêneros alimentícios.

Entre os dois só uma grande diferença: a comida a pessoa consome totalmente; medicamento sempre sobra e vai para o lixo. Um pecado mortal. Nas farmácias deveria existir possibilidade de recolher o excesso com a respectiva devolução proporcional do valor pago. Claro que tal prática não interessa para os fabricantes e intermediários.

E quando não vão para o lixo os remédios ficam “depositados” nas casas dos consumidores. Caixas, tubos, vidros, dispostos desordenadamente nos armários ou prateleiras, sem eira e nem beira. E quando sobrevém uma recaída o remédio guardado está vencido. O jeito é comprar outro igualzinho, só que o preço aumentou. Enquanto um novo mal estar não acontece cresce cada vez mais a “montanha” de remédios sem uso, em casa, ao nosso dispor. Parece no final das contas, olhando a quantidade deles, que as farmácias simplesmente mudaram de endereço...

“Idoso vive rodeado de remédios por todos os lados; é como uma ilha no meio do oceano. Pena que remédio não vale dinheiro para quem compra, só para quem vende. Se valesse, a ”terceira idade”  seria a mais desejada!”
Edson Vidal Pinto

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