Edson Vidal

A Melhor Idade Ou Me Engana Que Eu Gosto.

Tudo bem que a tecnologia fez a medicina evoluir a ponto de ofertar melhor qualidade de vida aos humanos, inclusive, alongando o prazo de validade da vida. E pensar que pouco tempo atrás a idade de cinquenta anos representava o início do fim da existência e superar os sessenta merecia aplausos. Poucos chegavam aos setenta anos, oitenta ou noventa já era coisa do outro mundo.

Era inimaginável. Com a modernidade a medicina das máquinas parece que robotizou as criaturas e estas estão chegando ao exagero de ultrapassar cem ou mais anos. Claro que nada contra, o instinto de sobrevivência é inato nas pessoas. Do jeito que caminha a humanidade o sujeito para ir desta para pior só se desligarem o botão da bateria.

Mas o que intriga é pretender reclassificar o ciclo etário dos seres humanos com denominações que soam certo deboche. Explico. Nominar que depois dos setenta anos vem o futuro da vida e rotular que ela seja chamada de “melhor idade”, de duas uma: ou quem disse essa besteira ainda não chegou nessa idade provecta ou se chegou está esclerosado! 

Não existe outra explicação lógica. Lembro que escrevi certa feita reclamando da idade que eu tinha e um leitor me entupiu ao responder que ele não tinha “idade” e sim “vida”. Fiquei remoendo a resposta e depois de algum tempo acabei concordando. 

Cada um tem o direito de opinar ou se sentir dentro da carcaça como quiser. Mas hoje, volto ao tema para dizer que vida todos nós temos e idade mais ou menos avançada, nem todos. Só os que chegam lá.

Gente, isso é verdade; se aos sessenta anos já começam algumas complicações de saúde como dores no corpo, insônia, dentes precisando de recauchutagem, diabete, calvície, falta de vitaminas no organismo, azia, piripaque no coração e óculos para leitura; tudo fichinha para quem ultrapassar os setenta aninhos ou a fase “da melhor idade”. 

Você não tem mais um cardiologista, você simplesmente casa com um, pois ele nunca mais vai se separar de você. E de igual maneira: o fisioterapeuta, o jardineiro de próstata, o urologista, o emendador e parafusador de ossos e o indispensável farmacêutico.

Com oitenta ou mais anos eu não me atrevo a dizer muita coisa, pois não sei se chegarei até lá, mas com certeza o ideal era poder se associar com um laboratório farmacêutico. Pois remédio de todos os tipos, cores e tamanhos a pessoa com certeza precisará. Eis aí o palco de vida dos afortunados da melhor idade; pura enganação do pior mau gosto.

Depois dos setenta vocês podem ter materialmente tudo ou quase tudo; mas, com absolta certeza o físico e o mental fica cada dia mais depauperado. Uma viagem cansa; uma festa enche o saco; a tolerância é zero e pactuar com a licenciosidade da vida moderna é inaceitável.

Só mesmo da boca para fora, porque interiormente o fígado derrama bílis por todo o organismo. Meu saudoso pai que não chegou aos setenta anos sempre me dizia: “Meu filho, o homem para ser velho tem que ser muito macho!”. Só agora vim entender muito bem o valor de suas palavras. E pensar que vivo hoje no esplendor da “melhor idade”, ainda bem que não me iludo com essas purpurinas, senão qualquer dia vou me apresentar no quartel para servir o exército...

“Idade, bobagem; o que importa é viver. Tudo bem, só que viver paga pedágio e este é o ciclo etário. Moço é moço e velho é velho. Pode ter até um velho menos velho, um velho conservado, um velho com alma jovem, mas ele sempre será velho. A “melhor idade” fica por conta do debochado, nada mais!”
Edson Vidal Pinto

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